Soneto da Fidelidade







Vinícius de Morais


De tudo ao meu amor serei atento
antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto;
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vao momento,
e em seu louvor hei de espalhar meu canto,
e rir meu riso e derramar meu pranto,
ao seu pesar ou seu contentamento


E assim, quando mais tarde me procure,
quem sabe a morte, angustia de quem vive,
quem sabe a solidao, fim de quem ama,

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure
.

Que cantem os poetas,

Que digam os loucos,

O que disserem,

Palavra rude ou bandeira,

Esgar ou fonema,

Que cantem,

Não mais calem,

Pois quando a fome é plena

E a desgraça um teorema,

Toda a fonética é pouca,

Para se dizer da voz a boca

Da retorta que há num tema.

Quando o poeta canta

E traz a voz ao homem,

Ou é sorte ou a planta,

Dos versos quando morrem.

Por isso, que cantem os poetas,

Ou digam os loucos,

O que disserem,

Que não há grito,que cale a fome,

Nem palavra, por nosso nome,

Numa criança,

Quando morre.


Por: Jorge Humberto

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais, a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada,
E que não chega nunca em toda a vida.
Carvalho

Autopsicografia




O Poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que ele escreve
Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa - Poesias

Desencanto


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

_ Eu faço versos como quem morre.
Manoel Bandeira

Fingidor



Escrevo-me todos os dias
e passo-me a limpo
para o papel
quando tenho tempo
para fingir de poeta.

A minha caneta
está esgotada
e sem tinta.


João Jacinto

Vai andar !!!!


Este blog ai finalmente começar a engrenar de novo. Aguardem por mais novidades!!!!

COTA ZERO


Cota zero
Stop
A vida parou
ou foi o automóvel?
Carlos Drummond de Andrade

INANIA VERBA

imagem:Luyis Royo

Ah! Quem há-de exprimir, alma impotente e escrava
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
- Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas desfeito em lodo, o que te deslumbrava...

O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a palavra pesada abafa a idéia leve,
Que perfume clarão, refulgia e voava.

Metáfora



Uma lata existe para conter algo,
Mas quando o poeta diz lata
Pode estar querendo dizer o incontível.

Uma meta existe para ser um alvo,
Mas quando o poeta diz meta
Pode estar querendo dizer o inatingível.

Por isso não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata.
Na lata do poeta tudo-nada cabe,
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata vinha a caber
O incabível.

Deixe a meta do poeta, não discuta,
Deixe a sua lata fora da disputa
Meta dentro e fora lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora
.

Felicidade...!!??


Só a leve esperança, em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência resumida,
Que uma grande esperança malograda
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida
Essa felicidade que supomos
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim; mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde estamos.
Vicente de Carvalho

Timidamente


Em fase de construção